22
fev
09

Grite “Gol!”, depois “Socorro!”

Leia até o fim antes de comentar este texto. Eu comento ele no rodapé da página.

O futebol, além de sua condição intrínseca (ser esporte), é usado como tangente por países do Terceiro Mundo para escamotear seus problemas. No Gran Teatro del Mundo que é a Copa, no confronto das realidades, esse esporte parece fazer as vezes de Deus: vira “coincidentia opositorum”. Ricos e pobres são aproximados pela diversão, assim como o podem pela violência na virada da moeda. O futebol tem virado, aliás, box de rua coletivo, truculento. Os hooligans ingleses, os barrabravas argentinos, alemães, brasileiros, dentro ou fora dos seus países.

É sufocante a burrice ou indigência patrioteira a misturar auto-estima, cidadania, desenvolvimento com futebol. É unanimidade atroz: país que pára inteiro no futebol é prova maior de atraso de vida e mentalidade. Todos, feito autômatos, correm para ver o circo. Não há nobre escolha, a refinada indiferença, o recolhimento. Copa no Brasil, Paraguai, Argentina, tem o efeito dum golpe de Estado às avessas. A pátria, precária, treme-treme. Todos fuxicam, vão atrás como os ratos de “Josefina, a Cantora”, ou “A Cidade dos Ratos” (de Kafka), que a seguem por todo canto, guinchando. Todos viram técnicos, viram patriotas, igualam-se hipocritamente. Hipocrisia flagrante: tanto o povo quanto os comentaristas esportivos lincham Zagallo porque perde da Noruega e, no dia seguinte, o endeusam porque elimina o Chile em partida espetacular. Não temos caráter, já dizia Mário de Andrade. Para Borges, isso é infâmia.

O futebol é um jogo físico. Sói ser fascista, com o fascio em campo e em torno uivos a brandir de punhos cerrados. A hegemonia do Brasil e a emergência dos africanos e afro-americanos corroboram o fato da relação futebol & atraso. Desses segmentos humanos, muitos só chegam à Europa graças aos seus acertados pontapés. Esse sturm und drang esportivo sempre teve o seu canteiro na horta-húmus punk-podre, inclusive nas melhores sociedades. É nessa horta que a horda se fortifica, se nutre. Nos resíduos de marginalidade, como no caso dos hooligans, dos barrabravas, da Mancha Verde, dos Gaviões da Fiel e outros. A faísca-espetáculo ateia fogo. Basta o indivíduo não ter autocontrole, qual o homem terceiro-mundano, que abarca essa escória do discreto império britânico e com a plebe alemã examinada por Wilhelm Reich quando pensa o nazismo.

Tal é o poder da representação simbólica à realização da libido e do seu uso político e social que acaba embrutecendo as pessoas, pelo fisiologismo cultural (pois “esporte é cultura”). Há nisso, é óbvio, um ritual, o entusiasmo, o transe a culminar no gol. A evolução cultural, social, mental, embutida aí a educação, a prevenção etc., pode conduzir a estágios em que o indivíduo, autodescoberto em sua plenitude e livre, não siga, hipnotizado, o que lhe impõe a televisão, o sensacionalismo, o passionalismo-panacéia.

O que se passa é que, neste país, o futebol é totalitário, uma unanimidade, atropelando tudo: trator arrasando biodiversidade da Mata Atlântica. Eu senti a estupidez da coisa, antes de conhecer Nélson Rodrigues. Unanimidade sufoca: é falta de oxigênio na inteligência, é fascismo potencial. Isto vale para religião, futebol e política. Todos esses fascistóides brandem punhos cerrados.

Futebol, negócio avassalador, tábua de salvação daqueles que, por ele, esquecem da morte e da vida. No Brasil, miséria, violência, fome, se empurram com a barriga ­ ou se chutam para fora do campo, nessa hora, com as pessoas. Enquanto a massa se distrai, os espertalhões deitam e rolam, como no dia 16 de junho, quando cortes nos gastos públicos (regalias na aposentadoria de funcionários públicos) tiveram voto contra das oposições (é copa). Dá para confiar em gente que pára tudo para ver futebol? O futebol é o nosso islamismo. Somos xiitas.

Por que imprensa e povo se deprimem tanto quando o Brasil perde? Resta um clima de viscosa melancolia, frustração. Porque nós, brasileiros, carentes de integridade de caráter, não sabemos perder. Mesmo Deus, só existe quando ganhamos. Carl Jung dizia, sobre os comunistas soviéticos: retirem os deuses dos homens mas coloque outros no lugar. Só que futebol é insubstituível. No Brasil, futebol é Deus. O Corpus Christi sofreu o eclipse devastador do planeta-bola. Convenhamos: como é possível trocar o futebol por tanta miséria, fome, crime, corrupção, injustiça no noticiário ­ quem quer ver? Não há cristão que agüente. Nem eu, que sou ateu e da laia de Nikos Kazantzákis, Cioran, Schopenhaner, Diógenes o Cínico… É preciso reconhecer: futebol é consolatio brasileirorum.

Jogo simples e poderoso, com alto índice de proletários em seu palco e platéia, o futebol, de origem antiga, aperfeiçoado e moralizado pelos britânicos, arraigou-se entre o populacho e a baixa classe média. Ele ilude, diverte, salva. É mais uma escravidão dos brasileiros, o mais vulgar dos jogos. Carnaval, só há uma vez ao ano; futebol há toda hora, em todo lugar. Muitos indivíduos, pobres e médios através do futebol se destacam nacional e internacionalmente. E o destino desses garotos? Hoje estão na mídia, amanhã na merda. Reaparecem, diversos, só com droga ou tragédia (vide Garrincha, Reinaldo et alii). De qualquer modo, uns países se redimem ­ precária redenção ­ com as campanhas nessas copas mundiais ou continentais, tapeando seus abismos de desigualdades ou seu primitivismo. Ronaldinho e outros raspam o cabelo (escondem seus traços negros), casam-se com loiras, sonham ser brancos. Aí reside o utópico, no fundo, na carne. Triste.

Bertolt Brecht, na época pré-nazista, advertia, com seu cinismo esplêndido: “No dia em que a terra tremer, não abandonarei meus charutos/nem os acharei amargos”. Ou seja: quando o Brasil perde, não abandono meus livros e humor, nem os acho chatos ou culpados. Então, leitor, cuidado: grite “gol!” e depois “socorro” ao cair dos sonhos tropicais de heptacampeão de bola para o chão duro de campeão de chacinas e assaltos (pelo Brasil & Brasília).

Seu patriotismo, aqui, inexiste. Não vejo você erguer bandeira alguma, senão a da indiferença vulgar e a do individualismo leviano. Nossa pátria parece não valer nada. Tem sido trocada, antes, durante e depois dos militares, por futebol. No fundo, não evoluímos. Apenas proliferou-se geometricamente a vulgaridade.

Fonte: AN (link morto), texto de Vicente Cechelero.

Notas pessoais do Webmaster:

* Futebol não é Esporte, e sim paixão, a arte do improviso, brincadeira com os amigos torcedores de outros times.. pra mim, além disso, evita sedentarismo.
* Concordo com o trecho sobre a indiferença e individualismo que domina nossa sociedade, mas não seria essa uma herança da nave-Mãe (os EUA)?
* Patriotismo serve pra quê? Guerras com interesses comerciais? Anexar territórios? Cidadania seria o ideal, mas do jeito que nos acostumamos a pegar filas enormes em bancos e diversos lugares, eleger políticos que constroem avenidas enormes para satisfazer montadoras e não ciclovias e calçadas como seria racional, daí concluí-se que somos todos mesquinhos e idiotas, mesmo.
* Hmm, a Copa do Mundo é justamente a celebração da paixão pelo esporte mais popular do mundo em escala monstruosa, quebrando barreiras de lingua, religião e outros tipos de imposições culturais, e eu mesmo fico interessadíssimo em ver jogos de outros times azarôes (como a Suécia, Senegal e Coréia do Sul) se darem bem em cima de países de tradição como Itália e França, mostrando um belo futebol.
* No caso dos clubes, aí sim, a violência das torcidas organizadas beira o facismo e a intolerância. Mas não quero generalizar e nem conheço todas as organizadas para condená-las, só porque ouve-se mais coisas ruins do que boas na imprensa sobre elas. Aliás, rotular grupos por raça, origem ou condição econômica foi o que fez o autor do texto acima..
* “A hegemonia do Brasil e a emergência dos africanos e afro-americanos corroboram o fato da relação futebol & atraso.” Mas, karalho, isso é genial: o fato desses países miseráveis revelarem grandes jogadores indica que a criatividade e o talento brotam onde menos se espera.. não entendo qual o mal disso… daqui a pouco vamos todos começar a jogar Golfe, e os intectuais vão falar que golfe é Pão-e-circo, também..
* Sem diversidade de opiniões esquerda/direita o site ficaria meio “vazio”, além disso estou aqui pra confundir e não pra esclarecer as coisas.

Links externos:
– Menores na Cracolândia – Futuros Craques, ou Usuarios de Crack? – Flickr de (M)(U)(N)(D)(A)(N)(O)
– Obras (ou desvio da verba delas), negociatas de lideres de governo e interesses emcima da Copa 2014
Brazil’s Lack of Nobels Has No Genetic Basis. Blame It On a Faulty Education, Brazzil Magazine – Revista de Geo-politica do Brasil em inglês – sobre a falta de estrutura da nossa educação pública.


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