13
out
08

A TV e vozes na sua cabeça

Título original: As imagens subjuntivas
Autor: Augusto Boal

Faz pouco tempo, tive a sorte de assistir a uma conferência da psicanalista Maria Rita Kehl. Não só durante sua palestra mas, mesmo agora, continuo estimulado por sua ciência e consciência, que me fizeram pensar e escrever este texto.

Maria Rita conversou sobre a tese de Guy Debord de que a nossa sociedade, depois da invenção da TV, teria se transformado na sociedade do espetáculo. Acrescentou, afirmativa: tornou-se o espetáculo da mercadoria, que é o que mais se vê na tela.

A invasão da TV em nossas casas é sinal claro de outras invasões. Em um sentido amplo, todas as sociedades vivem através de espetáculos: vivem em espetáculo, quase sempre inconscientes.

O fato de que os seres humanos sejam os únicos animais capazes de, através da arte em geral e do teatro em particular, criar imagens da realidade – isto é, representações e não apenas reproduções do real – permite que, na vida cotidiana, estabeleçam padrões de comportamento simbólico que tornam viável o convívio entre indivíduos que são, por natureza, canibais; ou, para não ferir sensibilidades, predatórios.

Eu, com pequenas variantes inventadas por mim, me comporto como aprendi a me comportar, como devo me comportar: represento um papel. Escondo alguns dos meus desejos até de mim mesmo, pois que não me autorizo todos os meus desejos, que não são castos. Nós nos comportamos como sabemos ser nosso dever: interpretando papéis, representamos cenas, quase sempre de baixa teatralidade.

Este teatro existe no dia-a-dia: o café da manhã, a mesa de um bar, o dia de trabalho e as horas do lazer, e – cuidado! – até no amor sincero. Tudo tende a se ritualizar, a se repetir da mesma maneira, que é a permitida: como os atores no palco, tendemos a dizer as mesmas palavras às mesmas pessoas, às mesmas horas do dia, e o pano não baixa nunca, nem quando baixam as pálpebras: sonhamos.

Se isso nos acontece, plebeus, imaginem a Luiz XIV que se fazia chamar de Rei Sol: batendo o pé, ele se negava a acordar sem a presença dos seus mais queridos nobres, que deviam aplaudir, frenéticos, seus bocejos matinais. Sem querer escandalizar os mais pudicos, revelo que morava em seus palácios um nobre, escolhido entre os mais amados, que desempenhava o cobiçado cargo de Gentilhomme du Coton, o Cavalheiro do Algodão, sempre de toalhinha bordada em riste: era o encarregado do baixo asseio corporal do rei (traudizindo: limpar a bunda de vossa majestade!). Naqueles momentos em que nós, plebeus, nos recolhemos na mais íntima de todas as intimidades, ele, resplandecente, exibia seu sorriso de satisfação para o seleto público admirativo que, neste ritual, substituía a mãe de sua infância – mesmo que, como suponho, as mães reais não se preocupassem em limpar reais traseiros! Até essa intimidade era espetáculo!

Esse teatro da vida real não nos permite escapar dos seus rituais: sempre se fez e faz teatro em toda parte, até mesmo dentro dos teatros. Neles, dada a sua explosiva espetaculosidade, as regras são mais enérgicas, restritivas e conscientes. Um espetáculo, como tal, é assistido por espectadores influenciáveis, reduzidos à condição de receptores quase passivos.

Mecenas=Patrocinador do programa ou show

A produção de um espetáculo requer um Mecenas que a pague – termo e função que nasceram na Grécia de Péricles, século V antes de Cristo. Entre os espectadores e o protagonista existe uma relação emocional intensa que permite e facilita a transmissão de ideologias, sempre em mão única, da cena à sala: a empatia. Essa relação é tão perigosa que o Mecenas intervem para que só se trate no teatro dos temas permitidos nas formas convencionadas. Os primitivos Mecenas, no entanto, abstinham-se de vender suas mercadorias durante a ação dramática; não ficaria bem, por exemplo, quando o trágico Édipo fura seus olhos sangrentos, vender óculos ray-ban nesse momento sublime.

Mas, mesmo quando se obedece ao patrocinador, na relação carnal entre protagonista e espectadores existe uma débil forma de diálogo, resquício de liberdade: os espectadores podem vaiar ou ir embora – e o mesmo pode acontecer entre o político e a massa, onde também se estabelece uma relação empática, emocional. Para o Mecenas, essa relação amorosa é demasiado permissiva: por isso, censuram, controlam tudo o que se diz e faz em cena – não oferecem o seu dinheiro a produções que contrariem sua ideologia. O protagonista é teleguiado, porém sua relação com o público permanece ao vivo, corpo a corpo, pois que de amor se trata.

No espetáculo televisivo, ao contrário, essa relação protagonista-espectadores se transforma em sua essência e não apenas na aparência. Espectadores, sugados pelas câmeras, reaparecem na mesma tela em que os atores se exibem nos programas de auditório, e se tornam tão virtuais como eles, obedecendo ao diretor de cena, que exerce funções de chefe de claque: o auditório na TV é dirigido, manipulado. A relação estreita com o protagonista deixa de ser exclusiva e passa a fazer parte do disfarce p/ o espectador-em-sua-casa.

Imagens e sons imperativos! Só admitem uma reação!

Quando se trata de telenovelas, na ausência do público virtual na tela, os espectadores em suas casas ou cortiços são controlados e informados de outra forma, pouco sutil: quando devem rir, o riso gravado em background determina o que é engraçado e, para a sonoplastia, tudo tem graça; quando se devem enlevar romanticamente ao estalar o primeiro beijo dos namorados, ouve-se o violino; quando se devem aterrorizar, chorar, sofrer, sorrir, sempre a sonoplastia indica o que fazer, e a isso obriga.

Como a TV foi feita para prolongar o comércio, na tela entra em cena a ruidosa mercadoria, colada ao protagonista, seja nos intervalos dos programas ou no merchandising descarado no próprio cenário; no ator careca que apregoa as vantagens milagrosas de uma loção capilar, ou no morador em coberturas na Barra que exalta os apartamentos em Madureira, de quarto e sala; ou, ainda, no ator que amealha no banco e tece loas à loteria!

A vida promíscua entre o ator e a publicidade transforma o protagonista em mercadoria, e a mercadoria em protagonista. O espectador, reduzido à sua função de consumidor, compra os serviços e o telefone da companhia tal, ao invés de outra, na esperança de que, ao desembrulhá-lo, encontre, no pacote, a atriz Ana Paula Arósio. Contrariando suas cálidas expectativas, a atriz não vem. Que pena: fomos enganados e não adianta reclamar ao Procon: – “Cadê a Ana Paula?” O gato comeu!

– “Faça como eu digo! Compre isto, beba aquilo, vista-se assim: é a moda. Não discuta comigo!”
Estas são ordens pronunciadas por imagens imperativas que instauram a certeza inquestionável; assim são as imagens da televisão: ordenam. – “Não mude de canal! Voltaremos em um minuto com mais ofertas obrigatórias que você não pode perder: nossas telefonistas estão esperando!”

As imagens subjuntivas

Mas existem imagens subjuntivas: – “E se eu fizer o que penso e quero?” Esta é uma frase subjuntiva que permite a dúvida: permite inventar!

As imagens podem-se conjugar como os verbos, e a TV pode – vale a hipótese! – oferecer imagens de dúvida, incerteza, oferecer perguntas – pode ser criativa. Mas não o é, porque a dúvida, uma vez instaurada, é contagiosa – uma dúvida leva a todas as dúvidas, e o espectador seria levado a de tudo duvidar: – “Será que uma cabeça careca também não é linda, reluzente? Serei mesmo amado por todas as mulheres se fumar este cigarro e morrer de câncer? Se beber este uísque e cair na sarjeta? Se exibir dez cartões de crédito e não ter fundos? Será verdade?”

Maria Rita Kehl diz a verdade quando afirma que a TV mente ao dizer que é você quem decide: já está decidido e as duas únicas hipóteses oferecidas ao público já estão gravadas. A TV não pergunta: o que faria você? Neste caso, o espectador seria confrontado a um amplo leque de possibilidades, estimulado à busca de mil soluções, e não apenas a responder “isto ou aquilo”, pergunta que traz embutidas as duas únicas respostas permitidas.

A TV tem um caráter policial e normativo com suas imagens imperativas. Nós, ao contrário, temos que oferecer ao público imagens subjuntivas que permitam a invenção, a fuga das trilhas aceitas e cansadas, controladas!

Contra a TV e os que a dominam, temos que erguer núcleos de resistência onde a pergunta seja a nossa resposta às provocações da vida, onde o diálogo seja lei, e a dúvida, nossa única certeza! Assim são, ou devem ser, os movimentos sociais urbanos e rurais, os movimentos dos Sem-Terra, Sem Teto, Sem Tela, Sem Palco, Sem Comida, Sem Amor, Sem Alegria…

O diálogo é, por natureza, o domínio do teatro, o de todas as formas interativas do teatro. Entre elas, o Teatro do Oprimido.

Artigo publicado originalmente na revista Caros Amigos
Augusto Boal é dramaturgo, criador do Teatro do Oprimido


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