11
out
08

conto: Linha 701-U Jaçanã – Butantã/USP (Vanessa Barbara)

Autora: Vanessa Barbara

Era uma habitual tarde de inverno. Seis e meia da tarde, o sol já tinha ido embora há um bom tempo e o Jaçanã 701-U seguia, com satisfação, seu bucólico caminho, para frente e além.

Não fosse, claro, o trânsito decididamente parado, o calor terrível a entrar e sair pelas janelas e a disposição amontoada de humanos pelos corredores: se alguém erguesse o cotovelo, doze pessoas ficariam feridas ou seriam lançadas para fora das janelas, sem chances para o rebatedor. Um suspiro, e o encaixe milimétrico dos passageiros iria para os ares, resultando em gemidos e irritação nervosa. A senhora ao lado olhava para o horizonte, estática como um abajur.

Percorríamos a Avenida Tiradentes, ou algo remotamente similar – era impossível enxergar algo além de perucas, carecas, pescoços e chapéus-panamá.

De súbito, ouve-se um murmúrio abafado vindo de um homem, em meio à multidão amorfa do pessoal que ainda não passara a catraca. O moço dizia alguma coisa sobre a cidade de Santos – mas ninguém ouviu, pois o garoto esmagado entre o assento de cor cinza e o balaústre tinha um walkman suficientemente potente para anular qualquer ruído externo, no raio de uns 5 metros. Além do mais, o bebê da fileira esquerda chorava, um casal discutia sobre a hérnia da tia Marilda, e um celular insistia em repetir a mesma melodia sem fim, tentando comunicar-se com o bebê ou com os golfinhos do Pacífico.

Aparentemente, ninguém ouviu o resmungo do homem de Santos. Ninguém, exceto o cobrador. Por algum motivo que escapa à coerência das coisas, ele se levantou de seu posto e esbravejou:

– … Mas você não está em Santos, senhor!

Outro resmungo, inaudível para os humanos. Apenas os golfinhos e o cobrador entenderam. Este último, com as veias da testa saltando, pulou da cadeira, apontou o dedo para cima e berrou, mandando o ônibus parar:

– Desce já! Não vou ficar agüentando desaforo dessa gente. Desce, maldito!

Os passageiros, já moldados na forma de um ônibus como massas de risole, soltaram um gigantesco suspiro. Estavam de pé há mais de uma hora, tenham paciência, meus senhores. Deu-se uma movimentação meio sincronizada, alguns aproveitaram para coçar os narizes e atender telefones. O ônibus brecou de repente, e todos os homens, bebês e balaústres ficaram indignados. O moço do walkman dançava, como um mosquito bobo.

Alguns mandaram o homem descer pela porta da frente. Outros, engravatados, pouco se importavam qual fosse a saída do impasse, contanto que chegassem logo em casa, inferno, olha a hora, ô motorista.

O senhor de Santos, já assustado, fez que ia descer, ensaiou uma ginga marota e arrancou do ônibus uma placa de ferro, anexada na parte de dentro do pára-brisas, que dizia: “701-U – Via Armênia, Tietê, Santana”. Com a placa nas mãos, golpeou as janelas da frente munido de uma força incrível, quebrando não se sabe o quê (eu só vi cabelos), e causando um estrondo horrível.

Metade dos passageiros ficou encolhida, como cãezinhos molhados. A outra metade gritou e tentou descer, pela porta de trás. A metade restante (era gente demais, pôxa) arregalou o pescoço e pôs-se a especular sobre o saldo de feridos, a natureza do estrondo e uma hipótese corrente (veiculada pela moça de cinza) de que o senhor encrenqueiro era, na verdade, o Elvis.

O cobrador quis socar ou torturar o homem, bem aos pouquinhos, cravando longuíssimas agulhas enferrujadas no branco de sua pupila, uma a uma. O motorista, tranqüilamente, pediu calma e mandou-o descer naquele exato momento. Suspiros.

O ônibus seguiu. Dois celulares já tocavam, o bebê voltava a se espernear, a Marilda já voltara ao tópico da discussão quando a velhinha de blusa rosa gritou, no ápice do desespero:

– Ele não desceu!!! Gente, socorro: Ele não desceu!

Ressurgido das cinzas, “ELE” – elevado à categoria de monstro psicopata – pendurava-se na parte de fora da porta, como nos filmes em que o ladrão é atropelado (aparentemente), mas sempre volta a escalar o capô do carro, nos momentos mais tranqüilos, quando a música incidental sobe de repente e o pipoqueiro do cinema se assusta.

A senhora ao lado piscava sem parar e se agarrava ao meu braço, rezando uma Salve Rainha Mãe de Misericórdia. O motorista tentou realizar manobras bruscas para derrubar o homem; quem sabe esmagá-lo, dar a ré e passar por cima novamente, como nos desenhos. O moço não caiu, nem virou papel.

A vós bradamos, os degredados filhos de Eva, a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas (ela dizia). Paramos mais uma vez e o cobrador desceu, correndo, a perseguir o homem para matá-lo a dentadas. Alguns passageiros fizeram o mesmo, e, no meio da avenida Tiradentes, entre a cavalaria da Polícia Militar e o Museu de Arte Sacra, um homem golpeava os carros, às cegas, com uma grande placa 701-U, perseguido de maneira igualmente insana por meia dúzia de homens, um cobrador e duas crianças.

Foi então que o moço do walkman decidiu tirar os fones, desconfiado de que alguma coisa anormal estava acontecendo.


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